“ai conho”
o sentido/significado das palavras varia sempre consoante o seu emissor.
toda a minha vida ouvi a minha avo mariana com esta expressao, e posso afirmar verdadeiramente que gosto dela. Hoje enquanto tomava um copo de café com gelo, pagava com um euro e recebia o troco no valor de um euro e quarenta centimos, ouvi uma senhora-a vizinha das flores, enquanto se sentava cá fora a dizer- ai conho. E de repente em mim houve sorrisos e uma breve recordação à infância e em concreto à minha avo. E assim revivi. E ai percebi o quao desligado pode ser o significado das palavras. Há anos que nao ouvia o ai conho, o ai conho que nao me soa a ordinarice, o ai conho que me soa a avo. à avo mariana que levantava o braço quando se chateava connosco (era mais com a mana e primas, eu era uma miuda que gostava mais de olhar) e dizia “conho”. o conho que eu observava. o conho que não era um significado, que era só dela, da avo mariana.
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pelas ruas de cá,
se entre o vosso dia-a-dia encontrarem uma miuda entre o moreno e o vermelhaço a cantar sozinha a ultima musica que deu na antena três, por volta das sete da tarde, pelas principais ruas da cidade, sorriam. Acabaram de se cruzar com o fenomeno abstracto chamado eu, e que faz parte do circulo de pessoas que só dá por si depois de acontecer.
Sou como aquelas pessoas (sim, espero que hajam mais), que exercita o pensamento na causa e não na consequência. Mas só depois. Antes sou o abstracto.
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além do físico
estou aqui menos o dentro de mim. eu estou a caminhar por entre ruas estreitas direitas a uma associação. avisaram-me agora. espero reencontrar-me brevemente.
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Baterás duas vezes e eu abrirei e não quererei acreditar que sejas tu. Entrarás num andar que desconheces e que é feito apenas para sobreviver. E aí me encontrarás, quem sabe porque estranho desígnio. Entrando na sala de jantar poderás ver o teu retrato e os nossos livros. Soará o Nocturno. Folhearás, quem sabe, Virginia Woolf. Virei atrás de ti com o desejo de sentir no meu rosto os teus cabelos. Sentar-te-ei com infinita ternura num dos velhos sofás compartilhados (onde estudavas nos últimos tempos um longo monólogo de mulher solitária — o que nunca foste). Espiarei os teus olhos, o triste sorriso dos teus lábios amáveis, entreabertos, e tudo acabará com um abraço que será o primeiro. Deixará de haver passado ou futuro. Tudo será lógico. E este poema nunca terá existido.
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segredo
um segredo numa árvore com decadas de vida espreita. foi confiado de forma simples. levá-lo a sério é mais do que mante-lo segredo, é retribui-lo igualmente com outro. e viver a cumplicidade de um segredo, numa vida inteira.
conta-me um segredo todos os dias.
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um olhar sobre o amor
- que significará amar nos dias normais que passam por nós, porque razão este sentimento nos faz sentir diferentes e especiais, que importância tem amar e em que perspectiva muda tudo?
- sempre que alguém alcança o amor, jamais alcançará uma perspectiva equilibrada da vida. É preciso que saibamos que a mesma paisagem que vemos é perfeita ou imperfeita não consoante a sua beleza, mas consoante a presença ou não da pessoa a quem nos dedicamos. E daí concluirmos que nada bastará se não o partilharmos. É dar por nós a compreender que a simples presença de alguém, muda simplesmente tudo.
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o conceito de querido
conversa de café:
1.” e sabes no msn veio ter comigo e começou a acusar-me de coisas parvas e eu respondi-lhe: eu nunca te trai e nao tenho de ouvir isto, muito menos no dia dos meus anos”
2.”pois realmente, olha e o meu nunca se lembra dos meus anos, mas ouve uma vez aos 18 anos, que cheguei a casa e ele começou a chamar-me, e eu a pensar que devia ser alguma coisa que me queria mostrar da caça ou assim, e quando cheguei à cozinha partiu-me dois ovos na cabeça porque era assim que quando os amigos faziam anos que se festejava”
1.” ai ouve lá, coitada”
2.”bem, eu desatei logo a chorar, fui logo tomar banho, olha chorei tanto mas depois disse-me: “tomara que eu te parta ovos na cabeça até aos 60 anos”
1″ ah vês…até foi querido, ve lá”
2″ yah…por acaso…”
e sim precisava mesmo de partilhar o que acabei de ouvir. sem juizos. só partilhar mesmo…
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chamo-me amor
sei que no sonho e na vida sou real, uma vez, pela primeira vez nestes dois lugares a realidade é só uma. porque tu chegaste e te peço sempre, fica. e guarda este meu novo nome sempre nos teus eternos lábios. e saberei sempre onde viver e como viver, e como sonhar é viver.
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às sete da manhã
acordo todos os ultimos dias com o primeiro chilrear dos passaros deste ano e recordo-me de há volta de um ano atrás, esta história repetir-se mas comigo a voltar a adormecer abraçada a ti. e esta saudade repete-se sempre.
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perder de vista
sete de maio de 2009, querido diário, gostavas que tu me ouvisses um bocadinho até a voz me cansar, e talvez o bocadinho fosse um bocadão, ou talvez a voz se adormeça antes de nos darmos conta do tamanho do bocadinho mas agora nao consigo desafiar as leis da escrita, estou só a precisar que me ajudes.
outrora, em criança, escrevi outros diários e pedia-te outras coisas, como o meu pai deixar de beber, como nós termos mais dinheiro para eu poder comprar aqueles ténis, como ter uma casa maior, sempre tive vergonha de desenhar a minha casa quando os professores pediam, nunca percebi como é que os professores nao tinham a noção de que haviam meninos que podiam nao ter casa, e pedia-te outras coisas mais, coisas que se revelaram impossiveis mas que me fizeram crescer e ser agora quem te pede ajuda outra vez. o meu crescimento nunca foi feliz, talvez porque cresci sempre contrariada, eu acho que por mim, tinha continuado bem a escrever nos antigos diários e a pedir as mesmissimas coisas, com os mesmissimos pensamentos. Mas isso não me foi possivel, assim como agora, que se revelou perante mim uma verdade que recuso a aceitar ate ao fim dos meus dias – ha muita coisa que nao me é possivel -, e recuso-a principalmente quando estamos a falar do amanhã. recuso-me mesmo. e quem se recusar também ajuda-me a manter esta verdade uma mentira. e porque nao podemos mover montanhas, mas podemos mover multidoes. e porque assumiremos nós que uma verdade é até ao final dos dias sempre uma verdade? porque nao posso contrariar que o que se viveu ha um tempo atrás é agora uma mentira? onde está a verdade da razão? no momento em que o vivemos, ou na lucidez de olhar o que se viveu?
e há muita coisa que nao me é possivel, no passado, esta é uma verdade. Mas teimemos até à exaustão: não é verdade que há muita coisa que nao me é possivel, no futuro. e quando há futuro. e quando se quer futuro. e principalmente quando a coisa se chama Tu. e ajuda-nos pedir, ajuda-nos querer, ajuda-nos falar, ajuda-nos viver. tentar viver. salva-nos tentar viver, com muitas idas ao quarto para chorar, mas sempre a voltar à sala de estar. à sala onde não somos mobilia, onde ela é toda possivel de se (re)construir. e então peço-te querido diário, que haja alguma coisa que me seja possivel, que haja a oportunidade de não renegar a hipotese de amar a felicidade agora que finalmente a encontrei, e que ela não me perca a mim de vista…
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fixações
porque razão nos preocupamos em interpretar os sonhos que temos a dormir em vez de nos preocuparmos em interpretar os sonhos que temos acordados?
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e se,
eu for a brisa que toca a tua nua pele , abrir as portas necessárias, descer as escadarias desobedientes, correr a calçada portuguesa, voar pelas arvores que gracejam a primavera e rodopiar que nem o peão que o miudo joga ao chão, alcançaremos nós a nudez que so o ar nos conhece? ora darei mil numeros a quem os quiser coleccionar, partirei em pedaços os rabiscos que todos nos achamos saber escrever, mudarei a minha rua de lugar, para perto da tua, as minhas botas para perto dos teus tenis, a nossa roupa no mesmo guardafato, a distância será um novelo que entregaremos à nossa vizinha bruxa que descobrimos que existia, e assim estendida ao teu lado, se souber só estar ao teu lado, retirarei tudo o que os meus olhos conhecem e feita bola de vento te abrigarei até mais que o peças.
e isto é até pouco para aquilo que eu sinto.
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a má ingestão de um morango
dá-se quando não temos alguém com quem os partilhar.

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qual é o tamanho?
o tamanho de um dia perfeito? o tamanho de uma musica perfeita, de um almoço perfeito, de uma conversa perfeita? qual é o tamanho de um amor? o amor é sempre prefeito, nao precisa o reforço da palavra - e o tamanho de uma voz perfeita? qual é a medida que mede o tamanho perfeito ? e se pusessemos em causa que só o tamanho de uma gargalhada é perfeito? e se pusessemos em causa que só o tamanho da espera é imperfeito? e se todos nós quisessemos agora, todos enfilados uns nos outros, todos em pé, até os que dormem, até os que descansam, até os que tem os pés no ar, saber a importância de alguém pelo seu tamanho? e como o poderiamos medir, se o dos outros só se consegue ver através do nosso próprio tamanho? e nós, de que tamanho conseguimos efectivamente ser? do tamanho que somos, do tamanho que nos veêm, do tamanho dos dias, do amor, dos outros, da gargalhada, da musica, do almoço, da conversa ou, do tamanho… dos nossos sonhos?
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escritas dele
nmmyrioujfhkmj m nhrgxjbl<x \
tenho um tesouro ao colo.
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o rapaz do meu bairro
passou-me ao lado. por cima está o sol.
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